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19 de fevereiro de 2020
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Jornalista piauiense fala sobre atentado e manifestações na França

A jornalista Andréa Rêgo, editora do site Brasileuro.info, falou ao Cidadeverde.com sobre o protesto histórico de viveu a França, após atentando que matou 17 pessoas, entre eles os mais expressivos cartunistas do mundo.

 

Andréa mora há seis anos na França, na cidade de Lyon, e escreveu artigo falando sobre o choque do atentado, o fundamentalismo e liberdade de expressão no dia-a-dia dos franceses.

Veja na íntegra o artigo:


Fundamentalismo para quem te quer

 

A França viveu ontem um dia histórico. Desde a liberação do País, no final da segunda guerra mundial, não se via uma movimentação igual. Milhões de pessoas foram às ruas em Paris, nas grandes e pequenas cidades, não apenas para manifestar, mas para mandar uma mensagem ao mundo, que pôde acompanhar, em tempo real, o sentimento que move os franceses neste momento.

 

Os atentados da ultima semana mataram 17 pessoas e feriram outras tantas, mas a França saiu fortalecida e unida. Da violência dos ataques, não se vai fazer o amalgamo: a riqueza deste País é o seu multiculturalismo. E foi o que se viu nas manifestações. Gente de todas as idades, de todas as religiões, de todas as nacionalidades, fez questão de afirmar que podem viver juntas, apesar das suas diferenças, respeitando uma as outras.

 

Problemas existem, contradições, incompreensões. Assim tem sido durante séculos e o País tem se apoiado em seus valores republicanos para supera-los. Bom que se diga: A França é um estado laico desde 1905, o que significa uma separação da religião. Elas podem coexistir, jamais uma se impor sobre as outras. A sua convicção religiosa é de domínio privado.

 

Outro principio em que se sustenta esse País é a liberdade, inclusive a de expressão. E é essa e a questão que se impõe no momento. Nos estados islâmicos, por exemplo, Maomé não pode ser retratado de forma nenhuma. Na França, não. Aqui o principio é que você pode desenhar e falar o que quiser. Quem se sentir ofendido procure os tribunais, para regrar as coisas existem as leis. Leis francesas, pois lembrem-se: nos estamos na França.

 

A imprensa também está inserida neste contexto e tem particularidades inerentes aos valores e à cultura deste País. Não se pode esperar que se comporte igualmente à anglo-saxônica, a do Brasil ou a dos estados islâmicos, por exemplo; isto seria insensato. Por isso, fico triste quando veja algumas manifestações vindas dai, certas delas quase de regozijo pelo que aconteceu ao jornal Charles Hebdo, um fiel representante da imprensa satírica, de tradição irreverente, escrachada e insolente.

 

Pois saibam que aqui a morte de seus colaboradores, dentro os quais cinco cartunistas reconhecidos entre os melhores do mundo, representou uma perda inestimável para este País. Charlie Hebdo não é só um jornal querido, ele é uma instituição para os franceses, que se apressam em socorrer e apoia-lo de todas as formas neste momento. Certo que o jornal não é uma unanimidade, tem muitos que detestam, mas este não precisam comprar ou lê-lo. Os que apreciam, têm o direito de continuar gostando.

 

Posso entender, no entanto, que os brasileiros apegados que são à uma moral cristã, se sintam chocados ao se confrontar com as charges de Charlie Hebdo. Mas repito: as coisas devem ser vistas em seu todo, além do que uma certa abertura de espirito é sempre bem-vinda. Charlie Hedbo não cria fatos, acompanha as atualidade. Se você se ater a isso, vai ver que não se trata de pornografia. O péssimo gosto que muito vezes veem é somente uma forma de chamar atenção, a escolhida por Charlie Hebdo.

 

Falso dizer ainda que o jornal elegeu os árabes como alvo de uma ação premeditada contra essa população. Quanto a isso me causou espanto às elucubrações de alguns intelectuais brasileiros; verdadeiras teorias conspiratórias. A estes, no entanto, não perdoo e credito mesmo a uma má fé, mínimo que se pode dizer diante de pessoas que dispõem de meios para fazer uma análise correta dos fatos.

 

Mas esse não era o interesse deles. Se o fosse, teriam pelo menos se dado ao trabalho de ver os desenhos de Charlie, porque ele também se “ataca” a outras questões, embora não se tenham noticias de atentados promovidos por conta disso . O que me faz pensar que não é totalmente anódino tal comportamento. Mas, bom, vamos deixar para descobri depois.

 

Quero ainda dizer que a França esta longe de ser o paraíso sobre a terra. Injustiça, racismo, preconceito, pobreza, que convergem sempre para criação de “cidadãos de segunda classe”, infelizmente também existem neste País. Mas, neste sentido, o lugar dos muçulmanos por aqui não é muito diferente do relegado a outras “minorias” pelo mundo. Talvez seja até melhor do que a realidade desse povo e de outros em outros países. Mas, claro, precisa mudar.

 

A França tem a maior população de muçulmanos da Europa. E qual seria a razão? Porque, vindos das ex-colônias, viraram parias da sociedade, privados do acesso à saúde e educação pública, dos benefícios sociais, de oportunidades de trabalho, impedidos de professar sua fé. Não creio. Agora é verdade que existe a interdição legal do véu integral (burca) e da poligamia. Mas quanto a isso, confesso, me faltam argumentos para defender.

 

Para finalizar, quero dizer que, apesar da ameaça que continuar a pairar sobre este País, onde vivo há seis anos, acredito que a França vai superar as suas dificuldades. As manifestaram de ontem fortaleceram a minha crença e a dos franceses de todas as origens, que mostraram essa determinação.

 

Os princípios de laicidade e de liberdade de expressão, caros para este País, vão se sobrepor ao fundamentalismo, este sim, intolerante em todos os seus aspectos.

 

Fonte: Cidade Verde

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