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19 de fevereiro de 2020
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Padre denuncia desperdício de recursos no sistema de caminhões pipas no Sertão do PI

O padre Geraldo Gereon, pároco da cidade de São Francisco de Assis do Piauí (a 500 quilômetros de Teresina e o município com menor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – do estado) lançou mais uma de suas famosas cartas.

Dessa vez o sacerdote, que é respeitado em toda a região sertaneja brasileira e tem trabalho internacionalmente reconhecido, denuncia exagero sobre sistema de abastecimento de carros pipas no Piauí. O padre diz que está havendo uma geração perversa e que dinheiro público continua sendo desperdiçado com esse tipo de sistema, principalmente em uma parte do estado em que ocorreram boas safras.

“Tivemos um bom inverno, com chuvas acima da média normal, com os açudes, barragens e cisternas repletas de água, com roças onde se colhe feijão e milho, mandioca e gergelim, com uma safra de mel elevada, com gado gordo e pasto farto para os animais. Todo mundo afirma: ‘Só não tirou nada quem não plantou’. Parece que a seca de quatro anos acabou. Parece … – fatos estranhos, no entanto sugerem o contrário. A seca prolongada tinha gerado a “calamidade pública”. Os fatos da atualidade deveriam levar à conclusão de que acabou a situação calamitosa”, escreveu, em tom de reflexão, o padre em um dos trechos da carta.

Mas o sacerdote continua destacando que para a surpresa dos que estão na região de São Francisco de Assis do Piauí (uma das mais pobres de todo o Sertão nordestino) não foi isso que ele relatou acima.

Barragem cheia e carros-pipa desperdiçando dinheiro público no Sertão do Piauí. Foto: Severino Carvalho

“Já no mês de março deste ano, portanto em pleno inverno, teve uma declaração de calamidade pública generalizada em 201 dos 224 municípios do Estado, dos cerrados piauienses no sul até o litoral no norte, praticamente no estado inteiro, mesmo com períodos de inverno bem diferenciados. É claramente uma medida organizada, premeditada, orquestrada a partir de um comando geral”, disse.

“Os integrantes desta ação são a Defesa Civil do Governo do Estado, as prefeituras, o Exército que administra o atendimento com carros-pipa, e, mais tarde, os que executam o Seguro-Safra. Todas essas entidades têm um interesse em continuar as ações emergenciais dos últimos anos, com recursos provenientes do Governo Federal. Além disso, a lei nº 8.666, art. 24, inciso IV dispensa da licitação para contratação de serviços pela administração pública. A calamidade pública é decretada em casos de desastres que causam prejuízos e danos. O decreto das prefeituras é necessário para a calamidade pública ser reconhecida pelo Estado e a União”, completou.

O padre, pegando o exemplos da região em que atua há mais de 30 anos, disse que as chuvas alcançaram valores acima da média normal. São Francisco teve 678 mm de chuva, 10 % acima da média normal.

“Vários lugares tiveram chuvas de até 800 mm. O IBGE declarou que seu levantamento sobre produção agrícola verificou perdas abaixo de 50%, fato este que não vai liberar recursos do Seguro-Safra. A calamidade pública decretada oficialmente, contrariando os fatos apurados, na verdade é uma emergência fabricada. A conseqüência é uma farra de contratos emergenciais fora do controle legal”, denunciou o padre, na parte mais dura da carta.

E continua o documento: “Os exemplos mais conhecidos são os pagamentos das quotas do Seguro-Safra no segundo semestre e a ‘Operação-Pipa’. Os carros pipa continuam rodando, mesmo em número reduzido. Não sabem onde colocar a água transportada, porque os reservatórios estão cheios. Vários proprietários rurais desligaram as cisternas da área de captação de chuvas, ou seja, dos telhados das residências, para chorar por água que os carros pipa têm que trazer”.

Padre Geraldo: preocupação com gastos desnecessários com recursos para o Sertão do Piauí. Foto: Severino Carvalho

“Novamente uma “emergência fabricada” que não tem a falta de chuva como causa, mas a falta de vergonha. Conta-se, também, que alguns donos de carro-pipa chamam os que têm um cartão para atendimento: dividem com o beneficiário o valor que se paga para cada cartão, sem rodar nenhum metro com água”, acrescenta.

O padre, duro com as palavras, complementa: “É evidente que se trata de uma fraude volumosa, na base de mentira e falsificação de fatos. É o câncer da corrupção que se alastra até as camadas populares dominadas pelo sistema político que nunca abandonou a “’ndústria da seca’”.

Constantemente o padre Geraldo Geron lança manifestos. A maioria deles dão resultados e discussões políticas acirradas. O sacerdote finaliza: “A função dos que servem a Jesus, o grande pastor das ovelhas, é participar da missão profética dele, no meio de uma “geração perversa” que se opõe ao seu reino de justiça. O profeta Isaias exige desses guardas e pastores que não sejam ‘sentinelas adormecidas’ nem ‘cães mudos’, que não sabem latir, só querem comer e dormir”, argumentou o padre, sobre o fato de continuar denunciando as mazelas do sertão piauiense.

 

 

Fonte: O Olho

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