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14 de julho de 2020
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Piauiense produz cordel sobre São João e viraliza nas redes sociais

“Não tem perdão para o ladrão do São João” intitula o cordel criado pelo piauiense Rômulo Maia que viralizou nas redes sociais. Gravado em vídeo, o texto típico da literatura nordestina celebra o período junino lamentando a impossibilidade de reunir familiares, amigos e conterrâneos por conta do isolamento social.

Esse tal coronavírus
Bagunçou nossas rotinas
E além dos beijos e abraços
Nos tirou as festas juninas.
Não haverá quadrilha,
Dançar forró é armadilha,
Ninguém pode se aproximar,
É preciso cuidado,
Eu sei que dá enfado,
Mas teremos que esperar.

Rômulo Maia revelou que a ideia é resistir com poesia ao período de isolamento.

“A ideia do cordel é expor esse sentimento de tristeza, mas de perseverança, tão forte no nordestino. Falar das marcas do mês junino, que são tão fortes, tão enraizadas na nossa formação cultural que essa pandemia não tem força de acabar”.

O vídeo foi gravado no município de Pio IX com professores, estudantes, jornalistas e repentistas que fazem parte da organização dos Folguedos de Pio IX. O evento será transmitido pelo YouTube nesta quarta-feira (24) a partir das 19h com o tema “A magia das noites de São João – Eu daqui e tu daí”, celebrando a tradição junina e folclórica da cidade piauiense.

Leia os versos:

Tá aqui dentro da gente,
No DNA nordestino,
É parte do nosso todo,
A cultura do mês junino.
Os cheiros e sabores,
Os temperos e amores
Desse tempo especial
Aí vem uma pandemia,
E estraga a alegria
De forma tão radical.

Esse tal coronavírus
Bagunçou nossas rotinas
E além dos beijos e abraços
Nos tirou as festas juninas.
Não haverá quadrilha,
Dançar forró é armadilha,
Ninguém pode se aproximar,
É preciso cuidado,
Eu sei que dá enfado,
Mas teremos que esperar.

Olha coronavírus
Não tem como perdoar,
Como tu ousa vir aqui
E derramar o mucunzá?
Tirar o sabor da paçoca,
O pipocar da pipoca
O grudento do alfinim,
A buchada, o sarapatel,
A maçã melada de mel…
Ah se eu te pego, bichim.

A beleza da meninada
Vestida pra se apresentar
Os passinhos sem compasso
Jeitim dengoso de dançar
Os bigodes pintados
Os cocó amarrados
Os vestidos multicor
É difícil pensar,
Mas nada disso haverá
Por conta desse temor.

Não haverá xaxado,
Arrastapé, nem baião.
Sanfonas em silêncio
Acordes de lamentação.
Nem forró pé de serra
Ou pé sujo de terra,
Do pisadim arrastado.
O tocador tá sisudo,
O cantor ficou mudo,
Culpa desse vírus abestado.

Já dou por falta do barulho
Das bomba de São João,
Do cheirinho de pólvora,
Se alastrando no salão.
A lenha queimando,
A fogueira esquentando,
A turma em reunião
Mês de junho sem isso
Sem esse rebuliço,
Num é mês de junho não.

A gente na pracinha,
Caçando comida e conversa
O povo encostando
O relógio sem pressa.
Tem rima, apresentação,
Pau de sebo, diversão.
Ô Covid da mulesta
Aqui se conta nos dedos
O dia pros Folguedos
E tu estraga nossa festa.

Ah se alguém grita
Lá no meio do salão
“É mentiiiiiiira!”
“Num tem Covid não”
“Alavantu, Anarriê
Passa a dama e balancê”
Mas num tem saída
Pra seguir em frente
Tem que girar diferente
Na grande roda da vida.

Seguiremos aqui,
Mascarados a esperar.
O Gonzagão que há em nós,
Vírus nenhum há de calar.
No peito tem fogueira,
Um calor de primeira
Que nunca se acaba.
No braseiro do coração
Arde forte essa paixão
Pode vir 10 mil praga.

Não tem bandeirinha,
Mas tem o luar do sertão.
A cruviana de noitinha
Soprando sua canção.
Se não faltar sorte
Tem um trio de caçote
Tocando desafinado,
Seguido da passarada
Logo na alvorada:
É o forró assobiado.

O São João é dentro da gente
E ao redor de nós tudim.
Tá no mundo todo
Tradição que não tem fim.
No matuto moderno
De gibão ou de terno
Sai até no respirar
É da nossa natureza
E tem tanta dureza
Que vírus nenhum há de quebrar.

Agora eu digo a vocês
E é cheio de rancor
Que a peste desse Covid
Esse espalhador de horror
É persona non grata
É visita ingrata
Não merece compaixão
Não tem como desculpar
Quem ousou roubar
A alegria do nosso São João

Valmir Macêdo / CidadeVerde

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