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6 de dezembro de 2022
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Transtorno do estresse pós-eleitoral é mais intenso após frustrações políticas; veja como lidar

Foto: Ascom/ TSE

Ver o candidato escolhido perder ou ser levado para mais um turno de forma inesperada -sejam por falsas expectativas ou uma disputa muito acirrada- é um fator de risco que pode piorar a saúde mental dos eleitores.

As conclusões são de pesquisadores norte-americanos que avaliaram 500 mil adultos durante as eleições de 2016 nos Estados Unidos. O resultado foi publicado em outubro de 2020 com o alerta de que o processo para a escolha de um representante pode afetar a saúde mental pública.

Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo já apontaram como a corrida às urnas pode criar situações de angústia e ansiedade. Neste ano, eles observam piora no quadro.

No Brasil, o chamado transtorno de estresse pós-eleitoral já foi sentido pelos brasileiros em 2018 com a polarização das eleições. O agravamento observado durante o processo deste ano deve se agravar após os resultados deste domingo (2).

Lula (PT), candidato apontado nas pesquisas com possibilidade de ser eleito no primeiro turno, e o presidente Jair Bolsonaro (PL), foram confirmados para uma segunda rodada de votação.

O trabalho conduzido por universidades americanas e publicada no Journal General Internal of Medicine, mostrou que os eleitores do candidato que perde têm uma piora imediata na saúde mental.

A Associação Americana de Psicologia apontou, em outro levantamento, que 81% dos adultos nos EUA reportaram em 2020 que o futuro político da nação era fonte significativa de estresse. Em janeiro de 2017, o índice era de 66%.

O médico Rodrigo Huguet, membro da diretoria da AMP (Associação Mineira de Psiquiatria), observa mais reações emocionais extremas de ansiedade, angústia e raiva durante o processo eleitoral de 2022.

Essas emoções, segundo o profissional, são normais e até necessárias para quem busca soluções. Quando persistem, porém, geram sofrimento significativo, interferem na qualidade de vida e até na funcionalidade da pessoa – momento em que um tratamento especializado deve ser buscado.

Uma estratégia para lidar com isso é “descatastrofizar” o tema. “É importante questionar o pensamento de que será o ‘fim do Brasil’ se o candidato que a pessoa não gosta for eleito. Essa narrativa é só estratégia para ganhar votos. O processo democrático prevê alternância de poder e a cada quatro anos temos novas eleições”, afirma o médico.

O transtorno pode se manifestar como tensão física dos ombros por estresse, dores de cabeça, problemas gastrointestinais, medo, hipervigilância, ansiedade, preocupação extremas, insônia, isolamento social, raiva e depressão, além de obsessão com atualizações e notícias.

Uma ansiedade desproporcional em relação à política pode ser interpretada pelo cérebro como uma reação de sobrevivência manifestada pelo medo extremo. Por essa razão, se a pessoa não se sente segura para sair de casa, se cala por receio de retaliações em casa ou na família, ou se sente perseguido por questões políticas de forma infundada, é hora de buscar ajuda profissional.

O coordenador de logística Pedro Brandão, 28, de Niterói (RJ), não faz terapia, mas pensa em procurar ajuda médica este ano caso seu candidato preferido não seja eleito, pois, segundo ele, isso lhe trará uma sensação de tristeza e desamparo muito grande.

“A saúde mental está muito mais desgastada após pandemia”, diz Brandão, que este ano não declarou publicamente seu voto por medo dos relatos de violência política no Brasil.

A jornalista Thamires Marciano da Conceição, 27, perdeu a melhor amiga em decorrência da Covid-19 e o seu emprego em 2021, acontecimentos que ampliaram sua ansiedade em relação aos resultados do pleito.

“Tive depressão e tomei ansiolítico por dois anos. Desde então tenho feito terapia. Mas depois da pandemia, todo mundo ao meu redor estava também mais cansado, irritado e ansioso, fosse pelo luto ou instabilidade no emprego”, relata.

O psicólogo clínico Luckas Reis, consultor de empresas pela Vittude e mestrando em psicologia social e do trabalho pela USP (Universidade de São Paulo), diz que o sofrimento é o principal indicador de que algo não está bem na saúde mental, e a forma como se faz política impacta diretamente na subjetividade dos indivíduos e da população.

Para ele, a diferença em 2022 é o acúmulo de experiências em relação às fake news, à Covid-19 e à violência política dos últimos dias, fatores que causaram o aumento no número de pessoas com sofrimento mental e a intensidade de seus sintomas.

“Hoje para construir esse argumento político, independentemente do lado, busca-se mobilizar afetos relacionados a essa sensibilidade que a pandemia deixou. Uma estrutura discutindo um pouco mais projetos e política em si, e não só oposições e comoção social talvez nos desse menores índices de sofrimento”, aponta Reis.

O efeito da circulação de notícias falsas e a ruptura de laços importantes nas últimas eleições também aumentam essa vulnerabilidade, ainda que em 2022 parte esteja mais preparado para lidar com ela.

“Tenho pacientes vivendo estresse pós-traumático por experiências políticas que vivenciaram por serem vítimas ou estarem próximos aos ataques, mas existe um sofrimento do que já aconteceu e um do que vai acontecer”, diz.

Algumas formas de lidar com os efeitos extremos das eleições na saúde mental são não se isolar, prestar atenção no próprio corpo e pensamentos, conectar-se com temas com os quais se tem mais controle e estabelecer limites diários para notícias e redes sociais, além de tentar ter empatia com o outro e procurar ajuda terapêutica se necessário.

Fonte: Folhapress

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